segunda-feira, 28 de março de 2011

ACERCA DO JEJUM

1. As experiências espirituais, por mais arrebatadoras que sejam, não nos são normativas. A Bíblia é que o é. O princípio se aplica ao tema do jejum, que nos ajuda a expressar, aprofundar e confirmar que estamos prontos para nos sacrificarmos para alcançar o que buscamos para o Reino de Deus (segundo a definição de Andrew Murray).

2. O jejum é uma prática voluntária, na decisão e na extensão. Não é requerida por Deus, a exemplo do celibato e do martírio. Muitos, muitísimos, homens e mulheres da Bíblia (e da história cristã) jejuaram (como Davi - cf Salmo 35 e 109), mas nela não encontramos Deus nos pedindo jejum. Nem mesmo Jesus o fez. No Antigo Testamento, Deus fixa o Dia do Perdão (Yom Kippur), que acabou acompanhado de jejum, mas ele não está prescrito em Levítico 16 e 23, que estabelece o Dia do Perdão. Os judeus, já no exílio, criaram outros quatro jejuns anuais (Zacarias 8.19), além de outros jejuns ocasionais. João jejuava regularmente; Jesus, não. (Mateus 11.18-19). Não somos judeus.

3. O jejum não amarra a Deus. Não façamos como os contemporâneos de Isaías, que perguntavam: [Senhor, ] "por que jejuamos (...), ‘e não o viste? Por que nos humilhamos, e não reparaste?’ (Isaías 58.3)

4. Jesus não recomenda o jejum, mas parte do pressuposto que seus seguidores o fazem e nos adverte do perigo implícito da vaidade que apode acompanhar a abstinência (“Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará" [Mateus 6.16-18]).

5. Quantos cristãos sinceros conheço que jejuam? Nenhum. Por seguirem à risca todas as instruções de Jesus sobre a prática, os cristãos sinceros que jejuam não permitem que os outros fiquem sabendo que eles jejuam. É por isto que não conheço nenhum cristão sincero que jejue. Quer jejuar? Jejue, mas não me diga, nem me deixe saber.

6. Jejum não é uma prática constante; a oração, sim. ("Jesus respondeu: “Como podem os convidados do noivo ficar de luto enquanto o noivo está com eles? Virão dias quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão". [Mateus 9.14 ; cf. Marcos 2.18-20; Lucas 5.33-35]) Portanto, o jejum espiritual é companheiro da oração. Sem ela, tem efeitos medicinais ou de auto-disciplina, mas não espirituais.

7. Jejum faz parte do processo de santificação, não sua negação. E santificação se evidencia na busca pela obediência a Deus, no relacionamento com Ele (humildade e pureza para a intimidade com Deus) e com o próximo (respeito e misericórdia  para a produção da injustiça). É por causa do desvio para o jejum ritualizado  que os profetas gritam ("No dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa, e em brigas de socos brutais. Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou,e não recusar ajuda ao próximo?" [Isaías 58.3b-8]; "Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Os jejuns do quarto mês, bem como os do quinto, do sétimo e do décimo mês serão ocasiões alegres e cheias de júbilo, festas felizes para o povo de Judá. Por isso amem a verdade e a paz”. [Zacarias 8.19])

8. O jejum pode acompanhar, como demonstração concreta, nosso arrependimento dos pecados, nossos e dos outros, como na maior parte dos textos bíblicos relacionados ao tema ("Então todos os israelitas subiram a Betel, e ali se assentaram, chorando perante o Senhor. Naquele dia jejuaram até a tarde e apresentaram holocaustos e ofertas de comunhão ao Senhor" [Juízes 20.26]; "Quando eles se reuniram em Mispá, tiraram água e a derramaram perante o Senhor. Naquele dia jejuaram e ali disseram: “Temos pecado contra o Senhor” [1Samuel 7.6a]; "Então Esdras retirou-se de diante do templo de Deus e foi para o quarto de Joanã, filho de Eliasibe. Enquanto esteve ali, não comeu nem bebeu nada, lamentando a infidelidade dos exilados" [Esdras 10.6] ; "No vigésimo quarto dia do mês, os israelitas se reuniram, jejuaram, vestiram pano de saco e puseram terra sobre a cabeça" [Neemias 9.1]; "Quando Acabe ouviu essas palavras [de que era abominável diante de Deus por sua infidelidade], rasgou as suas vestes, vestiu-se de pano de saco e jejuou. Passou a dormir sobre panos de saco e agia com mansidão" [1Reis 21.27]; "Os ninivitas creram em Deus. Proclamaram um jejum, e todos eles, do maior ao menor, vestiram-se de pano de saco" [Jonas 3.5]; "Decretem um jejum santo; convoquem uma assembléia sagrada. Reúnam as autoridades e todos os habitantes do país no templo do Senhor, o seu Deus, e clamem ao Senhor" [Joel 1.14, cf. Joel 2.12, 15]. "Por isso me voltei para o Senhor Deus com orações e súplicas, em jejum, em pano de saco e coberto de cinza. Orei ao Senhor, o meu Deus, e confessei" [Daniel 9.3-4a]).

9. Jejuar é abster-se do essencial (alimento durante um período determinado), mas também de todo desperdício. Jejum tem a ver com o quanto comemos (quando surgiram as balanças nos restaurantes, descobri, para minha vergonha, quantos gramas eu comia no almoço), com o que gastamos o nosso dinheiro, com as prioridades de nossa agenda diária, com o destino (quantas digo que não deveria ter dito!) de nossas palavras. Jejuar é também não comer em excesso, não reter recursos (dinheiro, talentos, dons) que foram entregues à nossa administração, não deixar a noite simplesmente ir vencendo o dia (como se não houvesse um propósito para a vida).

10. Podemos precisar de um jejum para entender algumas coisas que acontecem conosco. Neemias jejuou quando soube como estava Jerusalém ("Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus" [Neemias 1.4]). Paulo agiu assim após a sua dramática conversão. ("Por três dias ele esteve cego, não comeu nem bebeu" [Atos 9.9]).

11. Podemos precisar de um jejum como forma de lamento pelo nosso sofrimento. ("E se lamentaram, chorando e jejuando até o fim da tarde, por Saul e por seu filho Jônatas, pelo exército do Senhor e pelo povo de Israel, porque muitos haviam sido mortos à espada" [2Samuel 1.12]).

12. Podemos precisar de um jejum como uma forma de intercessão, que é oração pelos outros, dentro e fora da família. Davi orou e jejuou por seu filho e não foi ouvido.  ("Davi implorou a Deus em favor da criança. Ele jejuou e, entrando em casa, passou a noite deitado no chão" [2Samuel 12.16]); Esdras jejuou em favor de uma missão próxima. ("Ali, junto ao canal de Aava, proclamei jejum para que nos humilhássemos diante do nosso Deus e lhe pedíssemos uma viagem segura para nós e nossos filhos, com todos os nossos bens. (...) Por isso jejuamos e suplicamos essa bênção ao nosso Deus, e ele nos atendeu" [Esdras 8.21, 23]. Ester pediu que orassem e jejuassem porque corria perigo, mas iria agir (“Vá reunir todos os judeus que estão em Susã, e jejuem em meu favor. Não comam nem bebam durante três dias e três noites. Eu e minhas criadas jejuaremos como vocês. Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu tiver que morrer, morrerei” [Ester 4.16; cf. Ester 4.3; 9.1]).

13. Podemos precisar de um jejum como um tempo de conexão maior com Deus para podermos ser por Ele orientados. ("Alarmado, Josafá decidiu consultar o Senhor e proclamou um jejum em todo o reino de Judá" [2Crônicas 20.3]; "Estava ali a profetisa Ana. (...) Nunca deixava o templo: adorava a Deus jejuando e orando dia e noite" [Lucas 2.36-37]).

14. Podemos precisar de um jejum quando estamos para tomar uma decisão muito importante, seja no plano individual, seja no plano comunitário, como forma de demonstrar nossa dependência (individual e coletiva) de Deus. ("Enquanto adoravam o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram" [Atos 13.2-3]; "Paulo e Barnabé designaram-lhes presbíteros em cada igreja; tendo orado e jejuado, eles os encomendaram ao Senhor, em quem haviam confiado" [Atos 14.23]).

15. Podemos precisar de jejum quando a tarefa a ser executada por nós é maior do que a nossa capacidade e precisamos ser revestidos de mais poder. Embora os discípulos de Jesus regularmente não jejuassem, houve um momento em que Jesus disse que só fariam o que precisassem fazer com oração (prática constante) e com jejum (prática especial).  (“Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu lhes asseguro que se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. Nada lhes será impossível. Mas esta espécie só sai pela oração e pelo jejum” [Mateus 17.20-21]).

16. Podemos precisar de um jejum de nós mesmos. Precisamos de mais de nós mesmos, para que o Espírito Santo nos guie. O próprio jejum pode ser mais de nós, e não menos de nós, como deveria ser. A vaidade tem muitas formas de se manifestar; jejuar demonstrando é uma das mais poderosas tentações, como o revela a parábola do publicano e do fariseu, que jejuava duas vezes por semana e dava o dízimo de tudo quanto ganhava (Lucas 18.12). Jejuar é ter menos para ser mais. Quando jejuo, nego que minha felicidade vem da comida, da bebida, do dinheiro. Minha felicidade vem da liberdade de me abster de comer e não de comer o que eu quero; de me calar e não de falar o que eu quero; de me exceder (por que dízimo e não quinto) na generosidade e não na retenção.

17. O jejum de alimento não é para todos. O jejum de alimento é para quem tem saúde capaz de resistir, sem dano, a um longo tempo sem ingestão de comida. Os outros jejuns são para todos.

Sem ignorar o valor do jejum de alimentos, alguns de nós precisamos (e esta é uma decisão que vem do coração que se conhece e não se engana) de outros jejuns. Jejum tem a ver com a boca, mas não só com a boca, porque também com os olhos, com as mãos e com o bolso.

18. Quem sabe, alguns precisemos de um jejum de palavras. Jejua de palavras quem, sabendo o poder delas, abstém-se de as dizer. O jejum de palavras termina em não dizer, mas começa em não pensar, que começa em não desejar. Se você não deseja comentar a vida de alguém, aí começa o seu jejum. Se você não pensa mal de alguém, você não fala mal de alguém. Ouça suas próprias palavras e meça como está o seu coração. (Quanto mais penso mais me convenço: mais e melhor eu falo quando me calo.)

19. Quem sabe, precisemos alguns de nós de um jejum de ódio. Tem sobrado ódio em nossos corações, por que não um jejum de ódio? Tem sobrado egoísmo em nossas práticas, por que não um jejum de egoísmo? Tem sobrado curiosidade cúpida em nossos olhares, por que não um jejum de olhar?Tem sobrado julgamento (do outro) em nossa razão, por que não um jejum de razão? Tem sobrado palavras que não edificam (a nós mesmos e aos outros) em nossos lábios, por que não um jejum de palavras? Tem sobrado críticas às  ações dos outros, por que não um jejum de críticas?

20. De que você precisa jejuar?

De alimentos, para não ser dominado por ele e tem mais tempo para Quem deve controlar suas vontades? Jejue deles.
De desejos, que afastam você da busca maior de sua vida? Jejue deles.
De pensamentos de auto-piedade, ao não se sentir amado? Jejue deles.
De sua auto-suficiência, que o torna um idólatra de si mesmo? Jejue dela.
De palavras que sujam? Jejue delas.
De tristeza quando não é reconhecido? Jejue dela.
De que mais? Jejue.
Talvez estas espécies de práticas, de tão enraizadas, só deixarão você com oração e jejum (Mateus 17.21).

PR. ISRAEL BELO DE AZEVEDO – IGREJA BATISTA DO RJ.

JEJUM 2

Objetivo do jejum
É sensato reconhecer que a primeira declaração que Jesus fez acerca do jejum tratou da questão de motivos (Mateus 6.16-18). Usar boas coisas para nossos próprios fins é sempre um sinal de falsa religião. Quão fácil é tomar algo como o jejum e tentar usá-lo para conseguir que Deus faça o que desejemos. Às vezes se acentuam de tal modo as bênçãos e os benefícios do jejum que seríamos tentados a crer que com um pequeno jejum poderíamos ter o mundo, inclusive Deus, comendo de nossas mãos.
O propósito central do jejum
O jejum deve sempre centrar-se em Deus. Deve ser de iniciativa divina e ordenado por Deus. Como a profetiza Ana, precisamos cultuar em jejuns (Lucas 2.37). Todo e qualquer outro propósito deve estar a serviço de Deus. Como no caso daquele grupo apostólico de Antioquia, ‘servindo ao Senhor’ e ‘jejuando’ devem ser ditos de um só fôlego (Atos 13.2). C. H. Spurgeon escreveu: ‘Nossas temporadas de oração e jejum no Tabernáculo têm sido, na verdade, dias de elevação; nunca a porta do céu esteve mais aberta; nunca nossos corações estiveram mais próximos da Glória central’.
Deus interrogou o povo no tempo de Zacarias: ‘Quando jejuastes acaso foi para mim que jejuastes, com efeito para mim?’ (Zacarias 7.5). Se nosso jejum não é para Deus, então fracassamos. Benefícios físicos, êxito na oração, dotação de poder, discernimentos espirituais – estas coisas nunca devem tomar o lugar de Deus como centro de nosso jejum. João Wesley declarou: ‘Primeiro, seja ele [o jejum] feito para o Senhor com nosso olhar fixado unicamente nele. Que nossa intenção ao seja esta, e esta somente, de glorificar a nosso Pai que está no céu’. Esse é o único modo de sermos salvos de amar mais a bênção do que Aquele que abençoa.
Os propósitos secundários do jejum
Uma vez que o propósito básico esteja firmemente fixo em nossos corações, estamos livres para entender que há, também, propósitos secundários em jejuar. Mais do que qualquer outra coisa, o jejum revela as coisas que nos controlam. Este é um maravilhoso benefício par ao verdadeiro discípulo que anseia ser transformado à imagem de Jesus Cristo. Cobrimos com alimento e com outras coisas boas aquilo que está dentro de nós, mas no jejum estas coisas vêm à tona. Se o orgulho nos controla, ele será revelado quase imediatamente. Davi disse: ‘em jejum está a minha alma’ (Salmo 69.10). Ira, amargura, ciúme, discórdia, medo – se estiverem dentro de nós, aflorarão durante o jejum. A princípio, racionalizaremos que a ira é devida à fome; depois descobriremos que estamos irados por causa do espírito de ira que há dentro de nós. Podemos regozijar-nos neste conhecimento porque sabemos que a cura está disponível mediante o poder de Cristo.
O jejum ajuda-nos a manter o nosso equilíbrio na vida. Quão facilmente começamos a permitir que coisas não essenciais adquiram precedência em nossas vidas. Quão depressa desejamos ardentemente coisas que não necessitamos até que sejamos por elas escravizados. Paulo escreveu: ‘Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas’ (1 Coríntios 6.12). Nossos anseios e desejos humanos são como um rio que tende a transbordar; o jejum ajuda a mantê-lo no seu devido leito. ‘Esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão’, disse Paulo (1 Coríntios 9.27). Semelhantemente, escreveu Davi: ‘Eu afligia a minha alma com jejum’ (Salmo 35.13).
Conclusão
[Não poderíamos concluir esse estudo sem considerar que] a principal obra do jejum bíblico está no reino espiritual. O que se passa espiritualmente é de muito maior conseqüência do que o que acontece no corpo. Você estará engajado em uma guerra espiritual que necessitará de todas as armas de Efésios 6. [Dentro disso,] um dos períodos mais críticos no campo espiritual está no final do jejum físico quando temos uma tendência natural para descontrair-nos. [...] O jejum pode trazer avanços no reino espiritual que jamais poderiam ter acontecido de outra maneira. [Por isso, nós devemos, necessariamente, jejuar].

JEJUM 1

Um dos ótimos escritos sobre o jejum se encontra no livro ‘A Celebração da Disciplina: o caminho do crescimento espiritual’ do autor Richard J. Foster, publicado pela editora Vida. Assim, para um melhor entendimento acerca do jejum, eu decidi transcrever parte do texto, para juntos meditarmos, aprimorarmos o nosso conhecimento acerca do jejum, e, finalmente, reconhecermos a importância do jejum na nossa vida como crentes.


O jejum na Bíblia
Nas Escrituras, o jejum refere-se à abstenção de alimento para finalidades espirituais. Ele se distingue da greve de fome, cujo propósito é adquirir poder político ou atrair a atenção para uma boa causa. Distingue-se também da dieta de saúde, que acentua a abstinência de alimento, mas com propósitos físicos e não espirituais. Devido à secularização da sociedade moderna, o ‘jejum’ (se de algum modo praticado) é motivado ou por vaidade ou pelo desejo de poder. Isso não quer dizer que essas formas de ‘jejum’ sejam necessariamente erradas, mas que seu objetivo difere do jejum descrito nas Escrituras. O jejum bíblico sempre se concentra em finalidades espirituais.
Na Bíblia, os meios normais de jejuar envolviam abstinência de qualquer alimento, sólido ou líquido, excetuando-se a água. No jejum de quarenta dias de Jesus, diz o evangelista que ele ‘nada comeu’ e ao fim desses quarenta dias ‘teve fome’, e Satanás o tentou a comer, indicando que era a abstenção de alimento e não de água (Lucas 4.2ss). De uma perspectiva física, isto era o que geralmente estava envolvido num jejum.
O jejum parcial
Às vezes se descreve o que poderia ser considerado jejum parcial; isto é, há restrição e dieta mas não abstenção total. Embora pareça que o jejum normal fosse prática costumeira do profeta Daniel, houve uma ocasião em que, durante três semanas, ele não comeu ‘manjar desejável, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem me untei com óleo algum’ (Daniel 10.3). Não somos informados do motivo para este afastamento de sua prática normal de jejuar; talvez seus deveres governamentais o obstassem.
O jejum absoluto
Há também diversos exemplos bíblicos do que se tem chamado acertadamente ‘jejum absoluto’, ou abstenção tanto de alimento como de água. Parece ser uma medida desesperada para atender a uma emergência extrema. Após saber que a execução aguardava a ela e ao seu povo, Ester instruiu a Mordecai: ‘Vai, ajunta a todos os judeus. e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos’ (Ester 4.16). Paulo fez um jejum absoluto de três dias após seu encontro com o Cristo vivo (Atos 9.9). Considerando-se que o corpo humano não pode passar sem água muito mais do que três dias, tanto Moisés como Elias empenharam-se no que deve considerar-se jejuns absolutos sobrenaturais de quarenta dias (Deuteronômio 9.9; 1 Reis 19.8). É preciso sublinhar que o jejum absoluto é a exceção e nunca deveria ser praticado, a menos que a pessoa tenha uma ordem muito clara de Deus, e por não mais do que três dias.
O jejum coletivo
Na maioria dos casos, o jejum é um assunto privado entre o indivíduo e Deus. Há, contudo, momentos ocasionais de jejuns de um grupo ou públicos. O único jejum público anual exigido pela lei mosaica era realizado no dia da expiação (Levítico 23.27). Era o dia do calendário judaico em que o povo tinha o dever de estar triste e aflito como expiação por seus pecados. (Aos poucos foram-se adicionando outros dias de jejum, até que hoje há mais de vinte!). Os jejuns eram convocados, também em tempos de emergência de grupo ou da nação: ‘Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene’ (Joel 2.15). Quando o Reino de Judá foi invadido, o rei Josafá convocou a nação para jejuar (2 Crônicas 20.1-4). Em resposta à pregação de Jonas, toda a cidade de Nínive jejuou, inclusive os animais – involuntariamente, sem dúvida. Antes do retorno a Jerusalém, Esdras fez os exilados jejuar e orar por segurança na estrada infestada de salteadores (Esdras 8.21-23).
O jejum em grupo pode ser uma coisa maravilhosa e poderosa, contanto que haja um povo preparado e unânime nessas questões. Igrejas ou outros grupos que enfrentam sérios problemas poderiam ser substancialmente beneficiados mediante oração e jejum de grupo unificado. Quando um número suficiente de pessoas entende corretamente do que se trata, as convocações nacionais à oração e jejum podem, também, ter resultados benéficos. Em 1756, o rei da Inglaterra convocou um dia de solene oração e jejum por causa de uma ameaça de invasão por parte dos franceses. João Wesley registrou este fato em seu Diário, no dia 6 de fevereiro: ‘O dia de jejum foi um dia glorioso, tal como Londres raramente tem visto desde a Restauração. Cada igreja da cidade estava mais do que lotada, e uma solene gravidade estampava-se em cada rosto. Certamente Deus ouve a oração, e haverá um alongamento da nossa tranquilidade’. Em nota ao pé da página, ele escreveu: ‘A humildade transformou-se em regozijo nacional porque a ameaça da invasão dos franceses foi impedida’.
Continuaremos falando sobre jejum, no Jejum 2.